
Muita roupa preta, litros de vinho de garrafa e alguma atitude anarquista compunham a paisagem da Avenida São João na manhã deste domingo (16) durante a Virada Cultural de São Paulo.
No palco, a roqueira Pitty (vestindo pijama e usando óculos escuros) empolgava a multidão que a assistia com sucessos como “Memórias”, “Máscara” e “Equalize”. Durante a apresentação, enérgica como o horário pedia, ela agradecia à plateia. “Obrigado a todo mundo que veio e ficou desde ontem. Tô sem palavras...”, afirmou, antes de tocar “Me adora”, faixa que encerrou o show.
Colada à grade e muito emocionada, a professora Geisi Andrade (tatuagens de clave de sol no braço e de cerejas no colo, idênticas às de Pitty) sabia as letras de cor. “Ela é única, cara. Estou aqui desde as 16h do sábado só para viver este momento”. Chorando e fazendo o clássico sinal de "chifres do rock" com as mãos, ela dizia que esperava ainda ter forças para ver outro destaque roqueiro do evento, o grupo Titãs, um dos shows que encerrarão a Virada no fim da tarde.
Ao fim do show, o guitarrista da banda, Martim Mendonça, contou ao G1 que a princípio o horário assustou a banda. “Não sabíamos se deveríamos passar a noite na balada - o que podia comprometer a apresentação - ou acordávamos para vir direto para cá”.
Após optar pela segunda alternativa, ele diz que ao chegar a grande surpresa foi ver a animação do povo à espera do show. “Na hora pensei que se a animação continuasse com metade da intensidade em que estavam, ia ser um show incrível. E foi mesmo”.
No intervalo entre Pitty e CPM22 (que abriu a apresentação de hits da banda Ramones com os hinos punk “Teenage lobotomy”, “Psycho therapy” e “Blitzkriep bob”) sons do Nirvana mantiveram o público no pique.

Um cochilo pelo ‘rolê’
A alguns quarteirões dali, longe da “muvuca” que via Pitty, o casal operadores de telemarketing Felipe de Moraes e Tainá Pereira dava sua receita para sustentar a empolgação. “Estamos aqui desde as 21h e foi fácil varar a noite. Comemos qualquer lanche no McDonald’s na madrugada e demos uma cochilada para ter gás para o resto do rolê”, explicava Moraes, agarrado à namorada. “Ainda queremos ver as exposições de toy art e o show do CPM 22 tocando Ramones”, adiantava Tainá, sorrindo.
Entre os vendedores ambulantes, porém, a poção mágica que deixava o público varar a noite na animação era outra: o vinho envasado em garrafa plástica vendido por preços que variavam de R$ 4 a R$ 7. “Perdi a conta de quantos já vendi”’ explicava o camelô. “E o preço vai subindo conforme o dia nasce. Na madrugada tava mais barato.”
Quem não apelava ao vinho ou à devoção aos artistas, se cansava. Esse era o caso do grupo de amigos Érica Alves, Fabio Rodrigues e Adriana Tenório, estudantes vindos do bairro de Itaim Paulista. “Chegamos às 23h e agüentamos na raça”, dizia Rodrigues. “Ainda queria ver os Raimundos, mas não vou aguentar”, queixava-se Adriana. “Já cansei”.

Ginga suave
Na via paralela à São João, a Rua Barão de Limeira, a atmosfera era outra, mais relaxada. No palco de reggae, em que bandas tocavam sucessos do gênero jamaicano, como “Redemption song” e “One Love”, de Bob Marley, pessoas se abraçavam e dançavam com mais suavidade as batidas arrastadas do estilo.
Para os moradores do centro, dava até para passear com seus cachorros. Com os vira-latas Bebê e Juju na coleira, a recepcionista Beth Martins reclamava com certa resignação da bagunça na porta de casa. “É zoado, viu?” ria. “O povo tem de ter algum tipo de divertimento em São Paulo. No fundo é bonito de ver... Mas que é zuado, é!”